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Padre é investigado por assédio moral, violência psicológica e irregularidades financeiras
22/04/2026 18:10
Notícia Paraibana Reprodução

O padre Vandilson Pereira Sobrinho, pároco da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora em Barra do Garças, é alvo de investigação criminal conduzida pela Polícia Civil de Alto Araguaia, após o Ministério Público (MP) determinar a instauração de inquérito policial. As denúncias envolvem abuso espiritual, assédio moral, violência psicológica e irregularidades administrativas e financeiras no âmbito paroquial enquanto ele esteve administrador das Paróquias Senhor Bom Jesus da Lapa, em Ponte Branca, e São José Operário, em Araguainha, ambas pertencentes à Diocese de Barra do Garças, a 520 km de Cuiabá (MT).

A vítima, um ex-seminarista da Diocese que preferiu não ser identificado, relata ter abdicado de toda sua estrutura profissional para se dedicar ao discernimento vocacional na Diocese: desligou-se de cargos, encerrou empresa própria e deixou cargo de professor e coordenador universitário. Segundo a denúncia, os abusos iniciaram em dezembro de 2023, quando o autor da denúncia chegou à Diocese para um período de discernimento vocacional com vistas à ordenação sacerdotal. De acordo com o relato, o padre Vandilson teria submetido o seminarista a um conjunto sistemático de práticas de degradação psicológica, que incluíam privação de alimentos, obrigação de usar utensílios contaminados pelos animais do sacerdote, humilhações públicas durante celebrações de missas e em grupos de WhatsApp paroquiais, e intimidações constantes.

Ele chegou a ser internado em UTI Coronária do Hospital Santa Rosa em Cuiabá, em decorrência direta do clima de tensão e violência psicológica imposto pelo sacerdote. Laudos médicos e psicológicos documentam o quadro de saúde da vítima. Registros do Hospital Nossa Senhora da Abadia, em Ribeirãozinho, também documentam internações por pressão alta e febre emocional causadas pelos abusos — testemunhas identificadas, confirmam os atendimentos. O próprio padre ironizou publicamente a internação em UTI durante uma missa, atribuindo-a a hábitos alimentares da vítima, diante de toda a comunidade.

Além disso, a denúncia aponta que a administração financeira da paróquia carecia de transparência, principalmente no que diz respeito à destinação de dízimos, ofertas e valores arrecadados em leilões. De acordo com o documento, os recursos eram depositados em contas bancárias pessoais do sacerdote, sem a devida supervisão da Mitra Diocesana.

Ainda de acordo com a denúncia, o religioso é egresso da Diocese de Osasco, onde teria sido desligado do seminário por problemas morais. Chegou à Diocese de Barra do Garças acolhido pelo então bispo Dom Protógenes José, sendo ordenado diácono em dezembro de 2019 e sacerdote em julho de 2020. Desde então, acumulou os cargos de administrador paroquial, Coordenador de Pastoral, Vigário Forâneo, membro do Conselho Presbiteral e membro do Colégio de Consultores da Diocese.

Após a formalização das denúncias, o padre Vandilson Pereira Sobrinho foi transferido pela Diocese para a Paróquia de Nossa Senhora Auxiliadora, em Barra do Garças — sede da própria Diocese. Em resposta às denúncias, ele apresentou queixa-crime contra a vítima por calúnia e difamação.

Paralelamente, o caso foi levado à Santa Sé, em Roma, com denúncias formais encaminhadas à Nunciatura Apostólica no Brasil, ao Dicastério para o Clero e ao Dicastério para os Bispos — instâncias máximas da Igreja Católica para apuração de condutas de sacerdotes e bispos.

Intimidação e postura autoritária

No âmbito doméstico, os relatos registram que quando o seminarista chegava para jantar, a refeição já havia sido dada aos cachorros do padre, obrigando-o a se virar com o que restava. Em outras ocasiões, o padre servia primeiro os animais e somente depois permitia que o seminarista se alimentasse — inversão deliberada de prioridades que a denúncia enquadra como parte do padrão sistemático de humilhação e degradação psicológica ao qual a vítima foi submetida durante os 396 dias em que residiu sob o mesmo teto que o sacerdote. A vítima também passou a fazer uso de ansiolíticos — Donaren, Quetiapina e Venlaxin — para tratar crises de ansiedade generalizada e insônia causadas pelo comportamento do sacerdote, conforme documentação médica disponível.

Nas comunidades em que atuou, o padre era conhecido nos bastidores pelos próprios paroquianos pelos apelidos de “Coronel” e “Senhorzinho Malta” — referências à postura autoritária, ao tratamento com desprezo e às correções públicas que dispensava aos fiéis, incluindo adolescentes e jovens, provocando afastamento em massa das paróquias.

A denúncia descreve ainda que o padre Vandilson teria cobrado que o seminarista arcasse com o custo da substituição da bateria do veículo oficial da Fiat Strada da paróquia — despesa que deveria ser suportada pelos recursos paroquiais. O pagamento foi feito via Pix e contou com testemunhas que presenciaram a situação e ficaram revoltados. O comprovante de pagamento está anexado à denúncia.

Outro episódio descrito na investigação envolve um ex-acólito menor de idade, a quem o padre Vandilson teria pago para realizar massagens em seu corpo. O caso é corroborado por áudio do próprio coroinha na época com 14 anos, já entregue à Polícia Civil de Alto Araguaia e incorporado aos autos do inquérito policial em curso.

A denúncia revela que o padre Vandilson criava ativamente um ambiente de intimidação ao afirmar publicamente, em situações diversas, que “qualquer denúncia ao bispo não teria efeito prático, pois o bispo sempre o designaria para tratar do assunto”. A frase — repetida em público e em privado — desencorajava fiéis e o próprio seminarista de denunciarem irregularidades, reforçando a percepção de que ‘a corda sempre soltaria do lado mais fraco’. Do ponto de vista penal, a conduta pode configurar constrangimento ilegal (art. 146 do Código Penal Brasileiro).

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